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AI-AWARE

Ensinar, aprender e avaliar numa escola onde a IA já existe

Guia de reflexão, organização profissional e formação de professores

Escola Secundária de Rio Tinto n.º 3 · AERT3 Álvaro Barbosa · Grupo 550 — Informática Ano letivo 2026/2027

A questão já não é saber se os alunos usam IA.
A questão é decidir o que queremos que aprendam num mundo em que a IA está disponível.

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Nota de enquadramento

Este documento nasce da leitura do relatório do MIT “Report of MIT’s Ad Hoc Committee on AI Use in Teaching, Learning, and Research Training” (2026) e da necessidade de traduzir as suas ideias para uma realidade escolar portuguesa. Não pretende copiar um modelo universitário norte-americano. Pretende usar os princípios do relatório como ponto de partida para pensar a escola, a sala de aula, a avaliação, a formação de professores e a organização do trabalho docente.

Há uma razão para a urgência. O relatório do MIT descreve alterações que já são reconhecíveis no quotidiano escolar: o recurso à IA para evitar etapas do trabalho intelectual, a menor confiança na autoria de trabalhos realizados fora da sala, a transformação da relação entre esforço e resultado, e o risco de substituir a discussão com professores e colegas por uma interação individual com um sistema de IA. Na nossa escola, vários destes sinais merecem observação sistemática e discussão entre docentes, em vez de respostas isoladas.

A proposta central deste guia é uma escola AI-aware: uma escola que não finge que a IA não existe, não a transforma num fim em si mesma e não confunde eficiência com aprendizagem.

1. que significa ser AI-aware?

Ser AI-aware significa conceber objetivos, atividades, regras e avaliação com consciência explícita das capacidades atuais da Inteligência Artificial. Antes de pedir uma tarefa, o professor deve perguntar: “Uma IA consegue fazer isto?” Se a resposta for sim, surge uma segunda pergunta mais importante: “O que quero realmente que o aluno aprenda e como posso observar essa aprendizagem?”

AI-aware não significa “usar IA em tudo”. Significa tomar decisões pedagógicas conscientes sobre quando usar, limitar ou excluir a IA.

SituaçãoResposta não AI-awareResposta AI-aware
Relatório escritoPedir o mesmo trabalho e tentar detetar IA.Redefinir o objetivo; avaliar processo, fontes, decisões e defesa oral.
ProgramaçãoProibir qualquer assistente de IA.Permitir apoio em fases definidas e exigir explicação, alteração e depuração autónomas.
PesquisaAceitar a resposta final.Exigir verificação de fontes, comparação, rastreabilidade e identificação de incertezas.
AvaliaçãoConfiar apenas no produto entregue.Combinar produto, processo, evidência presencial e capacidade de transferência.

2. O alerta do MIT: os efeitos preocupantes não são hipotéticos

O relatório do MIT reconhece oportunidades reais — novas experiências de aprendizagem, experimentação e ferramentas personalizadas — mas identifica efeitos preocupantes na vida académica. Entre os sinais descritos estão a alteração de elementos fundamentais da experiência educativa, menor participação em momentos de apoio e discussão, redução de grupos de estudo presenciais, dúvidas sobre o domínio efetivo dos estudantes e um ambiente de suspeita entre alunos e docentes.

A transposição para uma escola secundária/profissional deve ser prudente: não podemos assumir que todos os efeitos do MIT ocorrem com a mesma intensidade. Podemos, contudo, reconhecer padrões semelhantes e medi-los.

2.1. Sinais a observar na nossa escola

  • Trabalhos muito acima do desempenho que o aluno revela quando é questionado presencialmente.
  • Alunos que chegam rapidamente a uma resposta correta, mas não conseguem reconstruir o raciocínio.
  • Código funcional que o aluno não consegue explicar, alterar ou depurar.
  • Redução da tentativa, do erro e da persistência perante problemas difíceis.
  • Dependência da IA para iniciar tarefas simples ou tomar pequenas decisões.
  • Menor procura do professor ou dos colegas quando surge uma dúvida.
  • Homogeneização da escrita, das soluções e das apresentações.
  • Dificuldade em distinguir pesquisa, assistência legítima, autoria e substituição do trabalho intelectual.
  • Desconfiança do professor perante qualquer trabalho de qualidade, mesmo quando é genuíno.
  • Foco excessivo no produto final e menor valorização do percurso de aprendizagem.

Estes pontos devem ser tratados como indicadores para observação e discussão, não como prova automática de uso indevido de IA.

3. O problema central: quando a eficiência elimina a aprendizagem

Uma das ideias mais fortes do relatório é que a IA pode permitir ao aluno contornar a aprendizagem. Em educação, nem toda a fricção é desperdício. Tentar, falhar, rever, discutir e voltar a tentar são partes do processo. Se a IA elimina sempre essas etapas, o aluno pode obter um produto melhor e aprender menos.

Um resultado excelente já não é, por si só, evidência suficiente de aprendizagem.

Num contexto AI-aware, o produto continua a ser importante, mas deixa de ser, por si só, evidência suficiente de aprendizagem.

Em vez de avaliar apenas…Passar também a perguntar…O que se pretende avaliar
O que entregaste?Como chegaste aqui?Processo, raciocínio e percurso de aprendizagem
O resultado está correto?Porque escolheste esta solução?Compreensão e capacidade de justificar decisões
O trabalho está concluído?O que mudarias ou melhorarias?Pensamento crítico e capacidade de reflexão
Conseguiste resolver este problema?Consegues fazê-lo noutro contexto?Transferência e aplicação do conhecimento
O produto funciona?Consegues explicar como funciona?Domínio efetivo do trabalho apresentado
Entregaste um bom trabalho?Consegues defendê-lo?Autoria, compreensão e argumentação
A solução parece correta?Consegues corrigir ou alterar uma parte?Autonomia e domínio prático
Usaste IA?Como usaste a IA e o que verificaste?Utilização crítica, consciente e responsável da IA

4. Princípios para uma abordagem escolar AI-aware

Nota: Os princípios seguintes não são uma tradução literal dos princípios do MIT, mas uma adaptação prática à realidade escolar portuguesa: se aceitarmos a filosofia do MIT, o que significa isso para um professor numa escola portuguesa?

  1. Aprendizagem antes da produtividade — A IA só acrescenta valor educativo quando ajuda a aprender, não apenas a produzir mais depressa.
  2. Aumento, não substituição — Usar IA para ampliar capacidades humanas; evitar que substitua sistematicamente o raciocínio, a criatividade, a decisão e a relação humana.
  3. Intencionalidade — Cada disciplina e atividade deve explicitar onde a IA é permitida, limitada ou excluída e porquê.
  4. Transparência — Alunos e professores devem declarar usos relevantes de IA quando estes influenciam substancialmente o trabalho.
  5. Verificação — Uma resposta da IA não é uma fonte de autoridade. Deve ser verificada, confrontada e contextualizada.
  6. Autonomia — O aluno deve conseguir demonstrar competências essenciais sem depender continuamente de IA.
  7. Relação humana — A escola deve preservar discussão, colaboração, tutoria, trabalho prático e contacto presencial.
  8. Revisão contínua — As regras não podem ser estáticas. As capacidades dos sistemas e as práticas dos alunos mudam rapidamente.

5. Um modelo simples de utilização da IA nas disciplinas

Em vez de uma regra única para toda a escola, pode adotar-se uma escala simples. O nível deve constar da proposta de trabalho ou ser comunicado pelo professor antes da realização da tarefa.

NívelRegraExemploEvidência exigida
0 — Sem IAIA não permitida.Teste, cálculo fundamental, escrita diagnóstica.Produção presencial/individual.
1 — IA como tutorPode explicar, questionar e dar pistas; não produz a resposta final.Preparação para exercício.Registo breve do apoio recebido.
2 — IA como assistentePode apoiar pesquisa, estrutura, revisão, código ou alternativas.Projeto, relatório, programação.Declaração de uso + validação.
3 — IA integradaA competência inclui saber trabalhar criticamente com IA.Projeto de IA, automação, análise comparativa.Prompts/decisões, validação, reflexão e defesa.

6. Avaliar num mundo AI-aware

A resposta mais sustentável não é uma corrida à deteção de textos gerados por IA. É criar avaliação com múltiplas evidências de aprendizagem. O peso de cada componente varia conforme a disciplina.

  • Defesa oral curta do trabalho ou projeto.
  • Perguntas de transferência: aplicar o mesmo conceito a um problema diferente.
  • Alteração presencial de uma parte do trabalho entregue.
  • Diário de projeto, versões intermédias ou histórico de decisões.
  • Demonstração prática e explicação das opções tomadas.
  • Momentos individuais sem IA para verificar competências nucleares.
  • Trabalho colaborativo presencial com papéis definidos.
  • Reflexão sobre o uso da IA: onde ajudou, onde falhou e o que foi necessário verificar.

6.1. Exemplo para Informática / TEAC / PAP

Um aluno pode usar IA para explorar bibliotecas, interpretar erros, propor uma estrutura de código ou comparar soluções. Na avaliação, porém, deve conseguir explicar a arquitetura, identificar o papel dos principais blocos, justificar escolhas, alterar uma funcionalidade, resolver uma falha e reconhecer limitações. Na PAP, a defesa ganha ainda mais importância: o produto pode ter sido desenvolvido com ferramentas de IA; a competência demonstrada tem de continuar a ser do aluno.

7. Preservar o que a IA não deve substituir

O relatório do MIT insiste na dimensão social da educação. A escola não é apenas um local onde se obtêm respostas. É um espaço onde se aprende a argumentar, ouvir, cooperar, assumir responsabilidade, lidar com frustração e construir confiança. Uma estratégia AI-aware deve, por isso, criar deliberadamente experiências em que a presença humana é central.

  • Discussão presencial de problemas sem dispositivos durante períodos definidos.
  • Oficinas práticas e trabalho de laboratório.
  • Revisão entre pares e explicação aluno-aluno.
  • Apresentações e defesas curtas frequentes.
  • Sessões em que o professor acompanha o processo e não apenas o resultado.
  • Atividades deliberadamente sem IA quando o objetivo é consolidar uma competência fundamental.

8. Proposta de organização para a escola

Uma implementação realista pode avançar por etapas, sem esperar por um regulamento perfeito.

Fase 1 — Diagnóstico (1.º período): Recolher exemplos e perceções de professores e alunos; identificar disciplinas/tarefas mais afetadas; mapear práticas já existentes.
Fase 2 — Linguagem comum: Adotar conceitos simples: AI-aware, níveis 0–3, declaração de uso e aprendizagem antes da produtividade.
Fase 3 — Pilotos: Selecionar algumas disciplinas/turmas para testar novas formas de avaliação e utilização orientada de IA.
Fase 4 — Formação: Partilhar casos reais, atividades e resultados; formar professores para uso pedagógico e não apenas técnico.
Fase 5 — Revisão: Avaliar o que funcionou, o que aumentou a carga de trabalho e o que melhorou a evidência de aprendizagem.

9. Questões para discussão em departamento / grupo disciplinar

  • Que tarefas que usamos atualmente deixaram de ser boas evidências de aprendizagem?
  • Que competências devem continuar a ser demonstradas sem IA?
  • Em que situações queremos que o aluno saiba trabalhar com IA?
  • Como evitamos regras contraditórias entre professores sem impor uma regra única a todas as disciplinas?
  • Como podemos avaliar autoria e domínio sem criar um ambiente permanente de suspeita?
  • Que experiências presenciais e colaborativas queremos deliberadamente preservar?
  • Que apoio e formação precisam os professores para experimentar sem aumentar de forma insustentável a carga de trabalho?

10. Plano pessoal de organização profissional

Para o professor, a IA pode ser útil em tarefas de preparação e organização desde que exista revisão humana e proteção adequada dos dados. O objetivo é libertar tempo para trabalho pedagógico de maior valor.

ÁreaUso possívelRegra pessoal
PlanificaçãoIdeias, sequências, diferenciação, rubricas.Rever objetivos e adequação curricular.
MateriaisExercícios, exemplos, versões por dificuldade.Resolver/testar antes de entregar aos alunos.
AvaliaçãoConstrução de itens, grelhas, perguntas de defesa.Decisão classificativa permanece humana.
ComunicaçãoRascunhos de mensagens, sínteses e atas.Rever factos, tom e dados pessoais.
ProgramaçãoProtótipos, depuração, documentação.Testar código e compreender dependências.
FormaçãoCasos, demonstrações, atividades práticas.Distinguir capacidades reais de marketing/hype.

11. Checklist AI-aware para preparar uma atividade

A checklist seguinte pretende apoiar-me na preparação de atividades num contexto AI-aware.

  • Defini o objetivo de aprendizagem antes de definir o produto a entregar.
  • Testei ou estimei o que uma IA atual consegue fazer nesta tarefa.
  • Decidi se a IA é proibida, tutor, assistente ou parte integrante da competência.
  • Expliquei aos alunos a razão pedagógica dessa decisão.
  • Previ uma forma de observar o processo e não apenas o produto.
  • Incluí uma evidência individual de aprendizagem quando necessário.
  • Se a IA for usada, exijo verificação das respostas e das fontes.
  • Evitei pedir dados pessoais ou sensíveis a sistemas externos.
  • A atividade mantém espaço para pensamento, tentativa, erro e interação humana.
  • Estou preparado para rever esta estratégia à luz dos resultados.

12. Uma possível declaração de princípio para a escola

A Inteligência Artificial faz parte do contexto em que os nossos alunos aprendem e irão trabalhar. Em consonância com os princípios orientadores do AERT3, a escola deve prepará-los para uma utilização ética, crítica e responsável da IA, promovendo simultaneamente a autonomia, a criatividade, o pensamento crítico e a capacidade de resolução de problemas. O uso ou a exclusão da IA deve resultar de uma decisão pedagógica consciente, colocando a aprendizagem e o desenvolvimento humano no centro da ação educativa. A tecnologia deve ampliar as capacidades humanas, não substituí-las. (AERT3, 2026)

13. Próximos passos pessoais — 2026/2027

  • Selecionar 2–3 atividades próprias e redesenhá-las segundo o modelo AI-aware.
  • Criar uma regra simples de utilização de IA para cada disciplina/módulo.
  • Experimentar perguntas de defesa e alteração presencial em projetos de programação.
  • Registar exemplos reais de vantagens, falhas e dependência observados ao longo do período.
  • Preparar uma sessão de formação curta para colegas baseada em casos da própria escola.
  • No final do período, rever as regras com base em evidências e não apenas em perceções.

Referências e leitura de base

Agrupamento de Escolas de Rio Tinto n.º 3. (2026). Projeto educativo.

Massachusetts Institute of Technology. (2026, 13 de agosto). Report of MIT’s Ad Hoc Committee on AI Use in Teaching, Learning, and Research Training. AI and Education. https://aiandeducation.mit.edu/report/

Documento de trabalho. Deve ser revisto e adaptado à realidade do Agrupamento, às orientações nacionais aplicáveis e à evolução rápida das ferramentas de IA.